A transparência e uma das propriedades materiais que mais me chama a atencão. Inicialmente pela presença massiva e crescente dos materiais transparentes no nosso cotidiano, particularmente na arquitetura. Nos últimos tempos é corriqueira a sua presença erguendo prédios, paredes externas ou internas, pavimentos ou mesmo telhados. A sua função de proteger e isolar permite e excita, no entanto, a agirmos como vigilantes ou voyeurs. A dominarmos visualmente sem nos envolvermos ou aproximarmos fisicamente. A agirmos cada vez mais anestesiados diante do mundo transformado em vitrines. 

                    É também avassaladora a presença dos materiais transparentes nos dispositivos eletrônicos como computadores ou telefones móveis, através dos quais “habitamos” n espacos e simultaneamente podemos nao estar em lugar algum. Me chama a atenção, quando a tela destes dispositivos está inativa, que ela funciona como um espelho retrovisor. Reflete a imagem do meu rosto e de tudo o que me cerca, tingindo-nos com um tom escuro e de contornos imprecisos. Quando ativada se converte em fonte de luz. E, se ligo sua câmera frontal, eu e o contexto somos espelhados em uma imagem clara e em alta definição. Converte-se em um dispositivo de vigilância que tanto me permite espiar quanto ser espiado. 

                   Assim, de um lado ou do outro desta superficie, deslizamos todos na mesma transparência (expressão muito estimada pelas políticas de estado e do Marketing) que nos entrega a servidores/robôs que coletam dados desde nosso tipo sanguíneo até nossa geolocalização. Somos imagens habitando servidores. Somos raptados da nossa condição de cidadãos e “presenteados” com a condição de consumidores. Estaríamos redimidos ?

 

 

                 Transparency is one of the material properties that most attracts my attention. Initially due to the massive and growing presence of transparent materials in our daily lives, particularly in architecture. In recent times its presence is commonplace erecting buildings, external or internal walls, floors or even roofs. Its function of protecting and isolating allows and excites, however, to act as vigilantes or voyeurs. We dominate it visually without getting involved or physically approaching it. To act more and more anesthetized in front of the world transformed into shop windows. 

                The presence of transparent materials in electronic devices such as computers or mobile phones is also overwhelming, through which we “inhabit” in spaces and at the same time we may not be anywhere. It calls my attention, when the screen of these devices is inactive, that it works like a rearview mirror. It reflects the image of my face and everything that surrounds me, dyeing us with a dark tone and imprecise contours. When activated, it converts into a light source. And if I turn on its front camera, me and the context are mirrored in a clear, high definition image. It becomes a surveillance device that allows me to either spy or be spied on. 

                Thus, on one side or the other of this surface, we all slide on the same transparency (an expression highly prized by state and marketing policies) that gives us servers/robots that collect data from our blood type to our geolocation. We are images inhabiting servers. We are kidnapped from our status as citizens and “gifted” with the status of consumers. Would we be redeemed?